Maternidade em xeque – até que ponto a maternidade perdeu espaço na vida social
   Luiz  André Medeiros  │     23 de julho de 2015   │     14:23  │  0

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Fato Social do ENEM

Nos últimos tempos, observa-se que há uma valorização da paternidade: homens começam a exteriorizar o desejo de ser pais. Hoje existem até vários casos de homens que conseguiram, sozinhos, adotar crianças sem a necessidade de uma companheira. As novas tecnologias, por outro lado, também merecem atenção. A busca por reprodução assistida, por exemplo, aumentou muito no Brasil nos últimos tempos.  Além disso, é preciso lembrar que a reprodução assistida oferece possibilidades de ter filhos que fogem à lógica convencional. Na Inglaterra, há mulheres que procuraram esse caminho para ter bebês mesmo sendo virgens, assim como casais homossexuais, homens solteiros e mulheres solteiras também podem adotar essa via para realizar o desejo de ter crianças.

No entanto, estamos em uma sociedade com uma infinidade de tendências e uma multiplicidade de escolhas, entre elas, ter ou não filhos. De fato, vemos, sobretudo nos países do hemisfério norte, uma sociedade com cada vez menos crianças, que, por sua vez, também são criadas cada vez mais como adultos. E é normal que também exista uma certa reação, materializada em todos os exemplos citados anteriormente, contra um tipo de sociedade que impõe a reprodução. Trata-se de uma tendência de pessoas que, em outros tempos, não poderiam assumir que não queriam ter filhos por não gostarem de crianças ou por outras razões.

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Argumentos em favor da maternidade são abundantes desde sempre. A continuidade do que somos, a realização dos sonhos frustrados dos pais, o amor incondicional possível somente quando se tem filhos, a necessidade biológica da reprodução, a companhia e o cuidado na velhice, enfim, motivos nunca faltaram no discurso coletivo. A diferença é que, de uns tempos para cá, os motivos para não tê-los também aparecem. Liberdade, individualidade, trabalho e absoluta ausência de instinto maternal estão entre as justificativas mais ouvidas.

Vejamos argumentos sociais e emocionais para as decisões:

  • 5 motivos para ter filhos

1) Realização pessoal: sonhar que uma criança complemente o universo familiar faz com que casais optem por ter filhos – o sentimento de ser pai ou mãe é intraduzível, é um amor que você não sentirá por nada ou ninguém, é singular.

2) Religião: a religiosidade tem e teve como princípio o sexo com a função de procriação. A visão da mãe com o amor incondicional também faz com que este modelo de comportamento seja admirado e aceito pela maioria.

3) Vaidade ou orgulho: a mulher grávida é enaltecida pela sociedade e, para ela, tudo pode. Inclusive, ter desejos descabidos e fora de hora. A mulher que não tem filhos é vista por alguns como alguém que apresenta problemas físicos ou psicológicos. Algumas pessoas dão demasiada importância ao que os outros pensam.

4) Valores morais e éticos: segundo o modelo considerado adequado pela sociedade, a vida só teria sentido quando se cria uma família com filhos, seguindo o padrão familiar em que a maioria foi educada. Além da pressão social, os próprios amigos e parentes  cobram o casal para ter filhos.

5) Projeto de vida: ser bem-sucedido profissionalmente, comprar um apartamento e se tornar pai ou mãe. Há casais que planejam todos os detalhes do futuro, incluindo o projeto de ter filhos.

  • 5 motivos para não ter filhos

1) Crianças custam caro: para educar, alimentar, vestir e criar é preciso muito dinheiro. “Ter filho custa mais caro do que um carro de luxo, um cruzeiro ao redor do mundo, um apartamento de quarto e sala em Paris. Está entre as ‘compras’ mais caras que o consumidor pode fazer em toda a sua vida”, afirma a autora Corine Maier, autora do livro “Sem Filhos – 40 Razões para Você Não Ter”, da Editora Intrínseca. Em média, se gasta 30% do salário mensal com os filhos.

2) Parto é uma tortura: dores, contrações e aumento de peso são alguns dos motivos para uma mulher nem pensar em gravidez. “A gestação e o parto acabam com o corpo da mulher. Nesse caso, não é só a mulher que não quer ver seu corpo deformado, mas o companheiro dela também. “Parto é dor, sangue e cansaço. A anestesia local é de grande valia mas, mesmo assim, está longe de ser algo agradável”, afirma a escritora Corine em seu livro.

3) Priorizar a carreira: ser bem-sucedida em uma profissão, ser reconhecida pela sua capacidade acarreta uma grande realização pessoal e filhos iriam atrapalhar a ascensão profissional.

4) Fim da vida sexual: o amor pode não acabar com a chegada dos filhos, mas há quem diga que o desejo desaparece. “O atentado estético contra o corpo da mulher a faz, durante vários meses, parecer um bicho grande, disforme e engordado à força. Muitos homens até acham bonito, mas nem por isso têm tanta vontade assim de fazer amor com elas”, diz Corine.

5) Fim da vida social: por alguns anos, criar filhos significa abrir mão de festas, reuniões sociais, passeios e viagens com os amigos.

Problemáticas a serem desenvolvidas

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  • Sociedade Mercantilizada

Hoje, porém, não há como negar que a opção de não ter filhos está disponível nos países desenvolvidos e também nas nações em desenvolvimento, como o Brasil. A partir do momento em que as tecnologias contraceptivas permitiram separar a sexualidade da reprodução, abriu-se uma outra opção para homens e mulheres, principalmente nas classes médias, de que a realização pessoal não passa necessariamente pela paternidade ou pela maternidade. É uma questão de escolha pessoal e não mais uma obrigação social.

E poder escolher o número de filhos – ou não ter filho algum – é uma conquista importante de homens e mulheres. Nesse sentido, não há nada de errado em escolher não ter filhos, já que vivemos hoje em uma sociedade multicultural, com demandas diferenciadas de grupos diferenciados.

O fenômeno da queda da taxa de fecundidade em diferentes países é complexo e passa por uma série de condicionantes. A questão de fundo repousa nas relações de gênero que mudaram no mundo todo, e estão se transformando também em nosso País. Em uma sociedade capitalista, urbana e industrial, absolutamente mercantilizada, os filhos se tornaram bens muito caros: gastos com saúde, educação, entre outros, aumentaram muito os custos de oportunidade de se ter filhos, principalmente nas camadas sociais onde as mulheres são escolarizadas e podem tentar não apenas um emprego, mas uma carreira. Se você somar a esse interesse feminino pelo trabalho, o fato de que, na classe média, os projetos para os filhos são caros – escola privada, cursos adicionais, férias – e que há as dificuldades cotidianas da criação dos filhos – equacionar trabalho e família, enfim, a dupla jornada de trabalho que continua sendo em grande parte feminina – não é difícil entender que algumas mulheres prefiram não ter filhos e optem por se dedicar mais a sua carreira, adotando um estilo de vida que não comporta maternidade e paternidade, mas, antes, autoinvestimentos – como cursos e viagens – e investimentos afetivos que se restringem à relação amorosa de casal. Estamos falando, portanto, também de uma questão de projeto de vida, que os americanos já apelidaram, nos anos 1990, de dink family: double income, no kids (renda dupla, sem filhos).

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  • O problema social da aposentadoria

Com a população ativa menor e mais aposentados, o desafio será equilibrar as contas da Previdência e o mercado de trabalho. Atualmente, gastamos 10% do PIB com a aposentadoria, número parecido ao da Espanha e de Portugal que possuem uma população muito mais velha que a nossa. Algo tem que ser feito agora, senão vamos gastar cerca de 20% do PIB lá na frente. Precisamos de uma reforma da Previdência, mas como é um tema tratado de uma forma muito emotiva, nenhum presidente quer tocá-la.  A economia informal também contribui para desequilibrar a conta da Previdência. Hoje um brasileiro vive mais ou menos 25 anos aposentando. Em 30 anos, podemos aumentar essa taxa para mais uma década. O jovem de hoje terá muito mais tempo aposentado.

Pesquisa demográfica realizada pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG indicou que no ano de 2050 o Brasil deve perder 30 milhões de potenciais contribuintes da Previdência Social. Além da preocupação com os efeitos de um maior investimento com gastos públicos destinados para a aposentadoria.

A razão entre a população potencialmente inativa (0 a 14 anos e 65 ou mais de idade) e a ativa (15 a 64 anos de idade), chamada de razão de dependência vai atingir o seu valor máximo em 2022. A partir de 2037, os idosos vão passar a depender mais da população ativa do que os jovens.

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Casais que optam por não ter filhos já representam uma em cada cinco famílias no Brasil

Segundo pesquisa do IBGE, a proporção de famílias formadas por casais sem filhos cresceu 33% no Brasil entre 2004 e 2013. Ao longo desse período, houve queda de 13,7% na proporção dos casais com filhos (de 50,9% para 43,9%). Já o número de casais sem herdeiros cresceu de 14,6% para 19,4%. Em 2013, uma em cada cinco casais brasileiros não tinha filhos, de acordo com a Síntese de Indicadores Sociais 2014. Especialistas alertam, no entanto, que a consolidação dessa configuração familiar reduzida aliada ao crescimento da esperança de vida significará, em um futuro próximo, menos profissionais jovens no mercado de trabalho, mais custos com aposentadorias e um risco de queda no crescimento econômico.

A tendência de queda no número da taxa de natalidade não é nova. O número de filhos por mulher vem se reduzindo desde a década de 1960, a exemplo do que ocorreu também em vários outros países. Se em 1970, as brasileiras tinham, em média, 5,8 filhos, hoje, esse número não chega a 2, taxa em que a população não se repõe. O número de nascimentos caiu 13,3% entre 2000 e 2012, quando a taxa de fecundidade foi de 1,77 filho por mulher, contra 2,29 em relação ao período anterior. Os motivos para essa diminuição são vários: maior escolarização, aumento do número de mulheres no mercado de trabalho, uso maior de contraceptivo, entre outros.

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Taxa de fecundidade das brasileiras

  • 1,77 filho por mulher foi a média de filhos por mulher no Brasil em 2013
  • 2,39 filhos por mulher foi a média de filhos por mulher no Brasil em 2004
  • 2,59 filhos por mulher no AC em 2013, a maior taxa de fecundidade do país
  • 1,58 filhos por mulher em SC em 2013, a menor taxa de fecundidade do país
  • 38,4% das mulheres de 15 a 49 anos não tiveram filhos em 2013
  • 41,5% das brancas até 49 anos não tiveram filhos em 2013
  • 35,8% das negras até 49 anos não tiveram filhos em 2013
  • 44,2% das mais escolarizadas de 15 a 49 anos não tiveram filhos em 2013
  • 21,6% das pouco estudadas de 15 a 49 anos não tiveram filhos em 2013

MASCOTE-03Proposta de Redação

Elabore uma redação considerando os fatores sociais, econômicos e culturais que podem ajudar a explicar esse fenômeno demográfico. Ao final, reflita sobre possíveis consequências, supondo que persista a tendência de queda no índice de fertilidade.

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