Dicas que fazem a diferença na hora de escrever
   Luiz  André Medeiros  │     27 de dezembro de 2015   │     9:56  │  0

Novas Turmas 2016 (2)

          O Projeto Saber em Debate promove mais uma vez a discussão de problemáticas encontradas rotineiramente nas produções textuais de diversos concursos e vestibulares. São esses pequenos, porém significativos detalhes que fazem a diferença entre um texto regular e uma produção de excelência.

          A língua se parece com as pessoas. É vaidosa que só. Adora ser enxutinha e ter tudo no lugar. Gordurinhas aqui e ali? Nem pensar! Bisturi nelas. O cirurgião plástico manda os excessos bater em retirada.

          Artigos indefinidos, pronomes possessivos, demonstrativos e indefinidos são alguns bicões que engrossam a fila dos candidatos à faca. Vamos a eles:

a) Artigos indefinidos

Um, uma, uns, umas devem ser usados com muito cuidado. Sabe por quê? Eles são inimigos do substantivo. Tiram-lhe a força. Tornam-no vago, impreciso, desmaiado.

          Ora, como as palavras mais importantes do texto são o substantivo e o verbo, não se pode maltratá-las. Manda o bom senso eliminar o inimigo. Fora, artigo indefinido!

Ex.: O Ministério da Justiça aguarda (uma) verba suplementar para saldar a dívida. Na avaliação do governo, a greve contra a reforma da Previdência não terá fôlego para prosseguir por (um) longo período.

          As palavras, como os remédios, podem matar. O artigo indefinido é medicamento de tarja preta. Causa dependência. Erva daninha, em 99% das frases é gordura pura. Corte-o. Mas não pare nele. Há outros inimigos a serem eliminados sem piedade.

b) Pronome possessivo

          Georges Simenon escrevia romances policiais pra lá de bons. O segredo: ‘’Livro-me dos vocábulos que estão na frase só para enfeitar ou atrapalhar’’. Um deles são os pronomes seu, sua. Eles parecem inofensivos. Mas tornam o enunciado ambíguo. A história a seguir exemplifica o estrago:

Ex. 1: O presidente do banco estava preocupado com um jovem diretor que, depois de ter trabalhado algum tempo junto dele sem parar nem para almoçar, começou a ausentar-se ao meio-dia. Desconfiado, o chefão chamou um detetive privado e lhe ordenou:

– Siga o diretor Duarte durante uma semana para ver se ele está fazendo algo errado.

O detetive, depois de cumprir o que lhe havia sido pedido, informou:

– O diretor Duarte sai normalmente ao meio-dia, pega o seu carro, vai à sua casa almoçar, namora a sua mulher, fuma um dos seus excelentes cubanos e regressa ao trabalho.

O presidente respirou aliviado e respondeu:

– Ah, bom, antes assim. Não há nada de mal nisso.

Incomodado, o detetive perguntou:

– Desculpe-me, senhor, mas posso tratá-lo por tu?

– Sim, claro.

– Então vou contar tudo de novo. O diretor Duarte sai normalmente ao meio-dia, pega o teu carro, vai à tua casa almoçar, namora a tua mulher, fuma um dos teus excelentes cubanos e volta ao trabalho.

Seu e sua referem-se a ele e a você. Daí a confusão A mesma ambiguidade ocorre nesta passagem:

Ex. 2: O subprocurador-geral José Roberto Santoro encontrou-se com a senadora Roseana Sarney no aeroporto de Brasília. Durante o encontro, Santoro, que é um dos procuradores do caso Lunus, chegou a ensinar Roseana a utilizar alguns recursos do seu celular.

De que celular? Da senadora? Do subprocurador-geral? Pode ser de uma ou de outro. O seu provocou a confusão. Sem ele, a frase ganha clareza:

“Durante o encontro, Santoro, que é um dos procuradores do caso Lunus, chegou a ensinar Roseana a utilizar alguns recursos do celular.”

Se quiser especificar de quem é o celular, os pronomes dele e dela resolvem:

“Durante o encontro, Santoro, que é um dos procuradores do caso Lunus, chegou a ensinar Roseana a utilizar alguns recursos do celular dele ou (dela).”

Há vezes em que o pronome, sem função, vira um belo Antônio. Pau nele!

Ex. 3: No acidente, quebrou a sua perna direita, fraturou os seus dedos da mão esquerda, arranhou o seu rosto.

Antes das partes do corpo, o possessivo não tem vez. Sem ele, a frase respira aliviada:

“No acidente, quebrou a perna direita, fraturou os dedos da mão esquerda, arranhou o rosto.”

Mais exemplos de inutilidade? Ei-los:

Ex. 4: No (seu) pronunciamento, Bush apoiou Israel.

Ex. 5: Antes de sair, calçou os (seus) sapatos, vestiu a (sua) blusa e pôs os (seus) óculos

c) Pronome demonstrativo

          Pegue o jornal. Abra-o em qualquer página. Leia artigos, reportagens, editoriais. Lápis na mão, assinale os “aqueles”, “aquelas” e “aquilos” que aparecerem no caminho. A conclusão é inevitável. O artigo (o, a) e o demonstrativo (o, a) caíram em desuso. A turma os esqueceu. Em vez do discreto monossílabo, empanturra a frase com o trissílabo peso-pesado:

Ex. 1: Garotinho condena aqueles que o criticam.

“Garotinho condena os que o criticam.”

“Garotinho condena quem o critica.”

Ex. 2: Aquilo que é escrito sem esforço é lido sem prazer.

“O que é escrito sem esforço é lido sem prazer.”

d) Pronome “todos”

          Ser claro é obrigação de quem escreve. O artigo definido se presta à confusão de significados. Dobre a atenção quando for usá-lo. Ao dizer ‘’os candidatos fazem campanha’’, englobam-se todos os candidatos. Se não são todos, o pequenino não tem vez: candidatos fazem campanha.

Para quem sabe ler, pingo é letra. Se o artigo engloba, o pronome todos sobra em muitas situações. Corte-o sem pena:

Ex. 1: Vou ao teatro todas as terças-feiras.

“Vou ao teatro às terças-feiras.”

Ex. 2: Todos os alunos que saíram perderam a explicação.

“Os alunos que saíram perderam a explicação.”

Conclusão: o texto é louquinho por lipoaspiração Ao escrever, leia a obra com cuidado. Depois, passe o motorzinho nas gorduras. Mande-as arder no mármore do inferno.

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